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29.03.2018 | 10h23

Jogador Nº 1 encanta com a nostalgia

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Jogador Nº 1 pode ser encarado como um filme de viagem no tempo, isso porque são indissociáveis os trabalhos que Steven Spielberg dedicou à juventude dos anos 80 com o longa baseado no livro de mesmo nome, do autor Ernest Cline, que inclusive faz menções ao diretor em sua obra. Responsável pela direção do clássico E.T. – O Extraterrestre (1982) e envolvido na produção e no roteiro da aventura Os Goonies (1985), o realizador evitou a autorreferência ao explorar os vários outros signos de cultura pop fornecidos pela publicação, tratando-a como a experiência visual que ela demonstra ser. Há um ditado popular que diz que o bom filho a casa torna, sendo assim, Spielberg volta a um lugar habitual, mais arraigado do que nunca ao que desenvolveu há três décadas.

O ano é 2045, a região é Columbus, Ohio. Nessa localidade encontramos Wade Watts (Tye Sheridan), jovem que se vê preso a um mundo distópico onde em vez de resolver os problemas, as pessoas apenas sobrevivem a eles. Morando sob o mesmo teto de sua tia Alice (Susan Lynch), constantemente vítima de seus detestáveis companheiros perdedores, o garoto encontra a fuga desse ambiente ruinoso na realidade virtual do jogo OASIS.

A morte de James Halliday (Mark Rylance), designer trilionário responsável pela criação do game, desencadeia numa busca infindável por easter eggs que ele espalha no sistema virtual, que levam a três chaves que darão acesso aos seus ganhos incalculáveis. Contudo, para desvendá-los, Watts contará com a ajuda de seu amigo Aech (Lena Waithe) e de Art3mis (Olivia Cooke), garota destemida que conhece em suas incursões pelo jogo, nascendo assim uma paixão cibernética.

Mesmo com doses cavalares de maniqueísmo, o roteiro de Zak Penn e de Cline, sabe utilizar isso a seu favor, ao expor justificativas plausíveis para a aceitação da imutável imagem tanto do bem quanto do mal. A cena em que Nolan Sorrento (Ben Mendelsohn), chefe da empresa multinacional IOI (Innovative Online Industries, que planeja tomar para si o OASIS), dá início à caçada por Parzival (nome de Watts no jogo), evidencia o seu constante apego a meios escusos, responsáveis por suas decisões desumanas e covardes, quase sempre executadas por terceiros, exibindo a mutilação afetiva e moral alusiva à sua inescrupulosa figura. Cada ação do personagem vai de encontro à gama de operações maléficas pensada pelos roteiristas, levando o espectador a não se importar com essa demarcação ferrenha, por mais explícita que seja, competência da envolvente profusão de componentes da história.

Num filme em que os limites da realidade esbarram na própria imaginação, o acréscimo de músicas dos anos 80 se integram com tanta naturalidade à narrativa, que parecem originais, feitas sob encomenda para o longa. Nunca inserções de canções de Van Halen, George Michael e Blondie caíram como uma luva dessa forma em uma produção, que aqui encontra o seu ápice em Everybody Wants To Rule The World, do duo britânico de rock e new wave Tears For Fears, cujo título já confirma a gana pelo poder diante da disputa pela fortuna de Halliday.

Jogador Nº 1 também referencia o cinema, onde quem ocupa o maior dos lugares é o diretor Stanley Kubrick, ao ter alguns dos cenários do Hotel Overlook, de O Iluminado (1980), expostos durante a captura de uma das chaves. Entretanto, alusões a Clube dos Cinco (1985) e Curtindo a Vida Adoidado (1986), de John Hughes, complementam diálogos, bem como uma rápida menção a Robert Zemeckis (da trilogia De Volta Para o Futuro, 1985, 1989 e 1990), tendo o seu sobrenome vinculado a um cubo, que tem como função uma volta no tempo de alguns segundos, artefato que auxilia Watts num calamitoso momento de sua jornada.

Engenhoso ao conseguir manter o interesse contínuo do espectador a partir do desenrolar de seus enigmas, exprimidos em meio a suntuosos efeitos visuais, Jogador Nº 1 desacelera somente nos momentos em que o seu quebra-cabeça está prestes a ser finalizado, atribuindo candura à figura tão peculiar de James Halliday, que tem a sua inadequação revelada perante o mundo real. O fato de não se sentir à vontade o levou a criar OASIS, declaração que alinhava todas as pontas do enredo e faz com que o público compreenda o aspecto outsider de um homem tão bem-sucedido. A trama ainda exibe a potência de sua articulação ao realizar uma crítica sutil aos obcecados por games, que passam tempo demais desconectados da realidade, perdendo o traquejo social tão imprescindível em sociedade.

Familiarizado a esse tipo de narrativa, Spielberg faz da nostalgia a sua aliada em Jogador Nº 1. Nessa tessitura de descoberta, não apenas dos easter eggs, mas da essência que enobrece o filme e toca os distintos estágios de composição em seu estado mais puro, ocorre a certificação de que o diretor sempre encontrará nessa estrutura visual o seu santuário perpétuo, posto que com ou sem a saudade de antanho, o longa reverbera nas mais diversas esferas. 

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