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07.05.2018 | 09h20

Seca do rio São Francisco deixa rastro desolador no norte de Minas

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A passos rápidos o homem de meia idade puxa o cavalo por uma corda entre as pedras e o matagal que toma conta da área. Mais à frente eles se equilibram para não cair nos filetes de água que restaram do Rio São Francisco, no trecho que passa por Pirapora, cidade do norte de Minas Gerais, a 346 quilômetros de Belo Horizonte.

Desde 2011, a região passa por uma das suas piores secas que além de enxugar o Velho Chico, tirou o ganha-pão de pescadores e esvaziou o bolso de comerciantes de uma cidade que dependia do turismo.

Quem caminha pela avenida principal, que um dia já foi comparada com o calçadão de uma praia, encontra um cenário desolador.

De um lado, que era para ter o rio que corta 507 cidades brasileiras, a água deu lugar a ilhas de assoreamento e pedras que antes não eram vistas. Do outro, comércios e quiosques abandonados. Os que ainda permanecem abertos, atendem uma clientela mínima.

Segundo a Emutur, órgão municipal responsável por administrar o turismo em Pirapora, nos últimos seis anos, a cidade perdeu 60% dos visitantes. Adélio Brasil, diretor de Patrimônio Histórico Cultural e Artístico, lamenta a situação.

"Era muito comum a orla ficar cheia de ônibus de excursão durante os finais de semana, hoje quase ninguém vem pra cá", diz Brasil.

Assista ao vídeo produzido pelo R7 em 360º (se estiver no celular, clique neste link): 




A escassez também impede o trabalho do barco Benjamim Guimarães, uma das principais atrações da região por décadas. Centenas de turistas conheciam as cidades vizinhas nos passeios realizados nos finais de semana na embarcação que é a única movida a vapor em atividade no Brasil, segundo o Iepha-MG (Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico). Há três anos, o Benjamim Guimarães está atracado por falta de navegabilidade, já que em parte do percurso a água não chega ao 1,20 m necessário para o barco não atolar.

O salto do peixe

O nome Pirapora, de origem indígena, significa “o salto do peixe”. A cidade que tem 56.706 habitantes foi assim batizada devido à grande quantidade dos animais que movimentavam as águas do rio com seus pulos rumo à cabeceira durante o período de piracema. O pescador Reinaldo dos Santos, conhecido como Moranga, conta que o que já foi fonte de beleza e renda na cidade, hoje dificilmente se torna alimento na mesa.

"Antigamente a gente saía para pescar, fazia o plano de ficar seis ou sete dias e voltava após dois dias, porque conseguia pegar uma grande quantidade", diz Moranga. "Hoje, a gente sobe para ficar cinco dias, fica 8 dias e não pega a metade do que pegava antes."

Durante os três dias que a reportagem do R7 percorreu Pirapora, a equipe não conseguiu acompanhar nenhum pescador retirando peixes do rio. Apenas uma peixaria visitada tinha o produto à venda, mas todos eles havia sido pescados na cidade de Olímpia, em São Paulo.

Baiano de Juazeiro, Moranga mora em Pirapora há 40 anos. Ele vive com a mulher em uma casa feita com o casco de um pequeno barco que não chega a dois metros de altura, à beira do rio São Francisco. Ele lembra da época em que a seca não era realidade.

"Antes tinha até o dia da enchente de São José. Era dia 19 de março", diz. "Costumava chover três dias antes e três dias depois. Era muita água."

Causas

Uma das razões para a chuva da memória de Moranga não existir mais é a influência do fenômeno atmosférico-oceânico El Niño, que provocou alterações climáticas em várias partes do mundo nos últimos anos. A média de precipitação na região caiu de 1.000 mm por ano para 500 mm, desde 2011.

Embora seja um fenômeno cíclico, ele pode ter consequências dificilmente reversíveis, aponta o engenheiro agrônomo Flávio Pimenta, que é professor de recursos hídricos da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). Segundo o pesquisador, a intervenção humana dificulta a recuperação do rio, mesmo que as chuvas voltem. "No início das chuvas, os afluentes conseguiam se recuperar com muita facilidade", diz Pimenta. "Porém, as nascentes e áreas de recarga do rio estão lastimáveis. Extremamente degradadas."

As margens do rio sofrem com atividade de mineração, desmatamento, plantio de monocultura e retirada desordenada de água acima do permitido. Assim, o solo não consegue segurar a água da chuva.

Para tentar reverter o quadro crítico do rio que passa por cinco Estados brasileiros, o Governo Federal lançou em 2016 um programa de revitalização chamado Plano Novo Chico.

A previsão é de investir R$ 7 bilhões até 2026 nas áreas de saneamento, controle de poluição e obras hídricas; economias sustentáveis; gestão e educação ambiental; planejamento e monitoramento; e proteção e uso de recursos naturais.

Apesar dos projetos, segundo Ahsfra (Administração Hidroviária do São Francisco), ainda não há previsão para a cidade de Pirapora receber obras de desassoreamento. Enquanto isso, a população e pescadores como Moranga rezam pela chuva para amenizar o sofrimento.

"Se a gente for pensar muito a gente fica doido e não pesca", diz Moranga. "O jeito é arrumar outra atividade e pedir a Deus pra abençoar."

 

 

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