Moradores de rua evitam albergues até mesmo no frio | Gazeta Digital

Quarta, 11 de julho de 2018, 08h00

Moradores de rua evitam albergues até mesmo no frio

Caroline Rodrigues, repórter de A Gazeta


O aposentado Pedro Aureliano Pereira, 79, é um dos 400 moradores de rua que enfrentam o frio na Capital mato-grossense esta semana. A temperatura registrada na madrugada desta terça-feira (10) foi inferior a 10ºC e para quem sequer tem um chinelo para calçar, receber a doação de um cobertor pode representar a sobrevivência.

João Vieira

Para minimizar os efeitos congelantes do vento, Pedro se uniu ao amigo, Klevison Alves da Silva, 38. Eles juntaram os cobertores e, assim, conseguiram reforçar a barreira de proteção e montar um abrigo improvisado perto de um monumento, na Praça da República, localizada em frente à Igreja Matriz, no centro da Capital. Segundo o aposentado, ele não temeu a morte, mas sim pessoas que costumam ser violentas com moradores de rua. “Alguns até jogam álcool e fogo”.

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Às 10h, quando conversava com a reportagem, ainda tremia e tomava alguns goles de pinga, que estavam em uma garrafa de água, para tentar aquecer. Reclamando de fome, disse estar preocupado com quarta-feira (11), já que os frequentadores da praça disseram que ficaria ainda mais frio.

No mesmo local, que segundo a coordenadora de um dos albergues municipais, Olga Tamiza Ribeiro Curvo, é um dos pontos de encontro de quem vive na rua, havia ainda outras pessoas, principalmente homens, que tentavam se encolher em bancos e outras estruturas.

João Vieira

Ela explica que muitos já passaram pelo serviço de assistência social, mas não ficam nas unidades por uma série de fatores, como o consumo de drogas e, principalmente, os limites estabelecidos nos albergues, entre eles a não saída do local depois das 16h sem uma justificativa.

Atualmente, a prefeitura mantém 3 unidades e cada uma delas tem 50 vagas, que costumam estar quase sempre ocupadas. Olga explica que na gestão anterior existia uma normativa que determinava o tempo limite de 24h para hospedagem. O período passou para 30 dias, podendo ser prorrogado conforme a situação do morador.

Quem está no prazo limite é Maércio Silva Rosano, 57. Ele tem experiência com almoxarifado, apontador e ajudante de pedreiro, mas está desempregado e, por isso, faz bicos como picolezeiro. “Tem dia que dá alguma coisa, outros dias não vendo nada. Mas, enquanto ando, distribuo currículo”.

O mineiro Maércio veio para Cuiabá trabalhar na construção do Shopping Pantanal e quando a obra acabou, não ficou parado. As oportunidades foram aparecendo e com o dinheiro ele conseguia pagar todas as contas e viver bem.

Marcus Vaillant

A maré começou a mudar quando ele perdeu o emprego há cerca de 2 anos e por mais que tentasse outros, nada surgia. O tempo foi passando e o dinheiro poupado com a rescisão e o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) foram empregados nas necessidades básicas. “Quando percebi, não tinha nem para o aluguel e fui colocado para fora de casa só com as roupas do corpo”.

Na memória, as lembranças do ex-morador de rua aterrorizam. Ele conta que no último frio forte estava na rua e não tinha sequer um casaco. Precisou se acomodar na porta de um edifício na avenida Major Gama. Sem cobertor, as costas ficaram protegidas apenas por uma camisa fina, enquanto deitava no chão de pedra. “Fiquei 10 dias vagando até que procurei ajuda e me encaminharam para o albergue. Agora, sonho em achar um emprego para não precisar voltar a ficar no relento”.

Entre doentes e viajantes

A coordenadora do albergue, Olga Tamiza Ribeiro Curvo explica que grande parte dos moradores da casa, atualmente, é formada por doentes, pessoas com problemas mentais ou viajantes, que transitam pelo mundo em busca de oportunidades. Neste último caso, eles querem apenas conseguir uma passagem para retornar para casa.

O enfermeiro e motorista profissional Pedro Fernandes, 65, chegou ao albergue na segundafeira (09) e nas próximas 48h terá embarcado para Londrina (PR), onde moram os filhos dele e alguns familiares.

Pedro conta que trabalhou durante muitos anos como enfermeiro e depois que os filhos casaram e ele se divorciou, resolveu trabalhar com viagens e se tornou motorista profissional em rotas turísticas de ônibus e caminhão. Assim, conheceu várias partes do Brasil e após atuar por 9 anos em uma empresa, viu o empreendimento simplesmente fechar as portas sem pagar a ele nenhum tipo de direito trabalhista.

“Fiquei tão transtornado com as contas que estavam pendentes e com a falta de perspectiva, que me tornei andarilho. Eu vagava pela cidade sem rumo, até que um sobrinho meu ficou sabendo, pagou minhas contas e me levou para casa dele em Rondônia”.

Fernandes alega que logo resolveu sair da “sombra” do sobrinho porque o jovem mexia com gado e ele não sabia como fazer o trato. “Resolvi correr o trecho para achar um serviço”.

E assim ele foi andando até que o dinheiro acabou e ele buscou ajuda no serviço social de Cuiabá. “Se não fossem eles, eu estaria na rua hoje. Eles sempre me tratam como muito carinho e respeito e agora estou ansioso para voltar para minha terra”.

Sem família

A identificação das famílias é outra ação do serviço social da prefeitura. No albergue, existe um número grande de pessoas com depressão, esquizofrênicas e com vários outros tipos de problemas mentais. “São pessoas que perderam os vínculos familiares e já não se enquadram em lugar nenhum. Elas precisam ter os laços restabelecidos”, explica Olga Curvo.

Quando chegam ao albergue, a vulnerabilidade é evidente. Normalmente chegam apenas com as roupas do corpo e há muito não sabem o que é banho ou as demais ações de higiene pessoal.

Outro obstáculo comum é a falta de documentos, que os impedem de ter acesso a alguns benefícios sociais. “Nem sempre conseguimos, mas seguimos lutando para garantir pelo menos o que está em lei”.

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