Ano novo, vida velha | Gazeta Digital

Segunda, 23 de janeiro de 2017, 17h01

opinião

Ano novo, vida velha

Rui Perdigão


Vim para o Brasil por amor. Porém o meu amor por esta terra está muito sofrido. Entro no ano novo regando anseios de liberdade, dignidade e igualdade que em termos pessoais me preenchem e tranquilizam, mas que no contexto social constantemente me desassossegam e frustram.

O ano começa, a nível nacional, com o desmoronamento do sistema prisional brasileiro expondo ao mundo e em direto o completo insucesso na sua edificação e no cumprimento da lei de execução penal, o que nos remete fatalmente para a profunda incompetência em realizar os mínimos dos mínimos exigidos pelo principio da ressocialização humana.

Sem se poder esquecer os estupros das inadmissíveis privações de liberdade sem culpa formada, é importante lembrar que as monstruosas carnificinas, rebeliões e fugas em massa ocorridas em vários estados, com o imediato reconhecimento oficial como sendo algo perfeitamente previsível e eminente, vem confirmar, não só o abandono e insustentabilidade da ação governativa sobre a questão, como também reproduz as invariáveis inaptidões no desempenho de funções por parte de muitos, talvez demais, quadros públicos superiores.

E assim, a Justiça brasileira, pilar basilar da sociedade, vai-se destruindo dia a dia colocando em xeque um país, todo um povo, várias gerações. Para certas pessoas a situação é irrelevante ou mesmo oportuna se contida dentro dos muros. Para outras é uma disfunção gravíssima do estado, com responsabilidades transversais e direcionadas a todos com encargos no exercício da justiça. Para outros, nada é por acaso, pois entendem existir intenção em manter esta admirável riqueza continental ingovernável pelos nativos.

Já em Mato Grosso o ano começa com uma significativa reorganização governamental que enquadra uma alteração estratégica que se legitima na intenção de desenvolver a continuidade do projeto que se acredita conter virtuosidades. O trabalho hercúleo necessário para a transformação de um pobre e rico estado latifundiário num território com maior valor acrescentado sócio-económico exige mudanças nas resilientes e nefastas práticas de fazer as coisas.

Administrar objetivos públicos e folhas de Excel precisa manter-se no foco e em sobreposição às agendas políticas, pontualmente mais restritas, que vêm agora, não só agregar como também colocar, na forte personalidade de um tribuno por excelência, a necessidade de refinar a análise de risco calculado das interferências. Não tem como fazer política sem fazer opções e a bem de todos nós o estado deve avançar sem deixar nenhum mato-grossense para trás.

Em Cuiabá, cidade que carinhosamente me acolheu, janeiro começou também sinalizado de forma simbólica. A Câmara Municipal, designada pelos eleitos como Casa do Povo, teima em continuar a ser apelidada pela imprensa como Casa dos Horrores, em virtude da recente proposta de aumento super-substancial de remunerações e despesas de vereadores e outros eleitos para um novo mandato, em total contramão com os sacrifícios diários a que o povo está obrigado. Importante referir tratar-se de um presente docemente envenenado deixado em pauta pelos anteriores, mas que revela bem a capacidade produtiva de desconformidades na representação delegada pelos cidadãos e a habilidade dessa casa para férteis e sabedoras aleivosias. Felizmente que o povo se ofendeu, alguns se negaram e um judiciário se indignou.

Com a idade pergunto-me se não estarei a perder disposição para amar, mas a minha companheira fala que eu existo no espaço e nele devo me expressar em condição ainda sine qua non da natureza humana, que não necessita de uma lei, mas que requer apropriação de tempo. E isso me faz pretender continuar a namorar 2017.

Rui Perdigão é administrador, consultor e presidente da Associação Cultural Portugueses de Mato Grosso
 

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