Jeito cuiabano dá vida a personagens que mantêm viva a tradição cultural | Gazeta Digital

Domingo, 08 de abril de 2018, 11h16

Jeito cuiabano dá vida a personagens que mantêm viva a tradição cultural

Rayane Alves, especial para A Gazeta


Cláudio Castro

Pode mudar o figurino, o gosto artístico, musical, pode morar no estrangeiro e até mudar de endereço, que o jeito cuiabano de ser não muda, ao contrário, o perfil singular dos homens e mulheres que nasceram em Cuiabá se tornou uma marca tão forte culturalmente falando, que a realidade passou a se confundir com a fantasia nos palcos e nas ruas das cidades, ganhando a simpatia de plateias de todas as idades, até mesmo fora do país.

O verdaderio cuiabano, aquele de “Tchapa e Cruz”, acabou se tornando um dois personagens mais queridos da cultura popular regional. Encantando e enaltecendo as singelas qualidades desse povo hospitaleiro, contador de ‘causos’, que tem amor de sobra no coração para partilhar com a cidade, para receber quem vem de fora ou quem está só de passagem.

Divulgação

Humoristas cuiabanos 

Os artistas de teatro foram os primeiros a perceberem que poderiam fortalecer as raízes da arte e da cultura regional levando para os palcos, ricos personagens vestidos de forma colorida e exagerada, o falar cuiabano cantado, cenários com réplicas bucólicas das tradicionais casas da cidade, músicas, danças, objetos, instrumentos musicais e muita “moagem” em cada um deles.

Quem não se divertiu com os lendários personagens criados pelo saudoso ator Liu Arruda? Comadre Nhara e cumpadre Juca, entre tantos outros? Ou ainda com comadre Creonice, de Ivan Belém, Comadre Pitú, de Vital Siqueira, Totó Bodega de Romeu Benedicto, inconfundíveis e carismáticos Nico e Lau, de Lioniê Vitório e J. Astrêvo, e uma escola de outros bons atores que se seguiu atrás dessses ícones tão bem lembrados.

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Liu Arruda - Comandre Nhara

Neste domingo de festa quando Cuiabá celebra seus 299, são esses personagens e seus costumes que ganharam corpo voz por atores e atrizes corajosos e ousados que abriram os caminhos do teatro na Capital ao longo de tantas décadas, que são homenageados.

A dupla Nico e Lau, por exemplo, surgiu em 1995, com a proposta de ocupar o formato cuiabanês em busca do fortalecimento da cultura do Vale do Rio Cuiabá.

Durante uma entrevista ao Vida, nesta edição especial, Lioniê Vitório, que interpreta Nico na dupla, lembrou que os primeiros espetáculos surgiram em um momento bastante delicado em relação ao falar cuiabano, pois as pessoas tinham vergonha do jeito simples de ser.

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Comadre Pitú, Totó Bodega e Comadre Creonice

“Então tivemos a ideia de tirar do fundo do quintal a dança, a música, a fala, o modo de se vestir e comportamento e levar para os grandes centros da mídia. Mas, tudo com o maior cuidado porque também não queríamos ser vulgar para não denegrir a imagem dos cuiabanos. Com isso, tiramos palavrões e hoje temos a percepção que o preconceito mudou. O público jovem mesmo gosta de ouvir a cultura”.

Vital Siqueira ator e teatrólogo que interpreta a Comadre Pitú avalia que na comédia é a melhor forma para tratar o jeito cuiabano, que não é simplesmente “uma coisa inventada, mas sim, fruto de uma herança deixada pelos ancestrais”.

“A terra é acolhedora, temos cuiabanos, paranaenses, índios, negros, paraguaios, espanhóis. E essa mistura criou todas as pérolas que temos aqui. Pois no começo, via se muito que quem chegava aqui estranhava o modo de ser e afirmava que o cuiabano não era chique, mas com o tempo passa-se a amar e respeitar e serem cuiabanos de paixão. E, é justamente essa mistura que antes dava motivos à gozações e não era valorizada antigamente, que hoje levo aos palcos e somos aplaudidos por nossas características construída em todos esses anos”.

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Nico e Lau

Nascido entre seis irmãos, filho de cuiabano e criador do personagem Totó Bodega, o ator Romeu Benedicto, também afirma que acabou entrando no mundo da arte pela forma em que foi criado com os pais.

“Éramos acostumados a sair do quarto e oferecer as visitas. Aprendemos muito a tradição, a religiosidade e a honestidade que apesar das fraudes o cuiabano carrega. O homem velho vira guri ao tocar um cururu ou siriri e percebendo e aprendendo todo esse nosso jeito carinhoso de ser do perfil e personagem cuiabano que criei o Totó Bodega que hoje é considerado um dos ícones da cuiabania. Nossas expressões não são erro de português, mas sim expressões de uma mistura de um povo”.

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