Antigo nacionalismo | Gazeta Digital

Quarta, 04 de abril de 2018, 00h00

Heródoto Barbeiro

Antigo nacionalismo

Heródoto Barbeiro


Os desfiles militares atraíam as atenções do mundo. Especialmente no 1º de maio, dia em que em muitos países se comemora o Dia do Trabalho. Ao invés de operários, soldados. Ao invés de caminhões civis, uma série de tanques da última geração.

O ápice do desfile era a apresentação dos mísseis intercontinentais que podiam ser armados com ogivas nucleares, suficientes para destruir toda a vida no planeta muitas vezes.

Nas muralhas do Kremlim os dirigentes da União Soviética, sorridentes com as conquistas tecnológicas e militares que a pátria do comunismo obteve desde a revolução de 1917.

Era uma aviso às nações capitalistas, que não ousassem atacar ou derrubar os regimes que reinavam na Europa, Ásia e pipocavam no terceiro mundo. Tudo aquilo existia em nome de uma doutrina ideológica. O regime se sustentava com a difusão dela pelo mundo e o apoio dos partidos comunistas e movimentos guerrilheiros locais.

Era a Guerra Fria e dela só haveria um único vencedor, ou o comunismo ou o imperialismo. O sistema se esgotou e o império soviético veio muro abaixo com a queda do muro de Berlim. O capitalismo, em suas diversas formas, triunfou com o advento da globalização e os avanços tecnológicos.

Poucos países comunistas escaparam da derrocada. A China entrou em um processo de capitalismo de estado, associou-se ao capital internacional, tornou-se a maior credora dos títulos da dívida americana e apareceu em todos os portos e aeroportos do mundo com suas mercadorias de baixo preço.

A Coreia do Norte se manteve imóvel nos quadros antigos do comunismo e uma dinastia de ditadores se impôs. Ao sul, a outra Coreia tornou-se uma potência capitalista e tecnológica e, à primeira vista, poderia ocorrer o mesmo que nas Alemanhas.

A Oriental não suportou o crescimento e a atração da Ocidental e foi tragada por ela. O regime norte coreano, para sobreviver e impedir a atração do sul, desenvolveu uma ditadura rígida, de inspiração estalinista. Impossibilitado de concorrer no campo econômico e tecnológico, o governo de Pionyang militarizou o quanto pode o país.

As comemorações se dão nas datas relativas à família do ditador atual e os desfiles copiaram os da antiga Praça Vermelha. A salvação foi criar um inimigo externo e desenvolver mísseis capazes de atingir primeiro Seul e Tóquio, depois os Estados Unidos. Os testes nucleares foram o aviso que não se metessem com o regime comunista capitaneado pelo terceiro herdeiro.

Com o fim da Guerra Fria e o encolhimento do comunismo, a Rússia passou a procurar um espaço dentro do capitalismo para chamar de seu. Aos poucos se associou a regimes antiamericanos como o da Venezuela, Cuba e até o conglomerado econômico conhecido como Brics.

Não entrou na área de influência da China, mas se manteve firme no Oriente Médio. Se os americanos podem, porque não os russos? O arcabouço ideológico do socialismo acabou, restou apoiar os regimes claramente ante ocidentais como a Síria. Petróleo e gás não faltam na Rússia.

É um exportador importante. Manter bases militares na região ainda é considerada uma forma de reafirmação do poder militar. Em suma, sobrou pouco espaço para pirotecnias internacionais como no passado. Restou recuperar o antigo nacionalismo, tão duramente combatido no período soviético, sempre identificado com o imperialismo.

A burguesia russa é investidora nas bolsas de todo o mundo e as fronteiras estão abertas para a influência do capitalismo atual. Pode se considerar que a primeira guerra mundial teve como motor o colonialismo, a segunda a ideologia e nada mais sobrou para os dias atuais. Ainda que o atual governo russo tenha se esforçado ocupar um canto muito estreito nas mesas de decisões do futuro atual da humanidade.

Heródoto Barbeiro é âncora e editor-chefe do Jornal da Record News em múltipla plataforma.

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