Ladeira abaixo | Gazeta Digital

Quarta, 28 de março de 2018, 00h00

Heródoto Barbeiro

Ladeira abaixo

Heródoto Barbeiro


A tevê chegou aos plenários por dois caminhos. Inicialmente através das reportagens que jornalistas faziam sobre os assuntos mais importantes e polêmicos que deveriam ser lá decididos. Ou pelos seus representantes, ou pelos magistrados indicados de acordo com a lei. A participação dos membros das assembleias nas reportagens era curta, aquilo que os jornalistas chamam de sonora com declarações que subsidiavam a história que estava sendo contada. Os jornalistas eram os intermediários entre o que se passava nos plenários e a população do pais. É verdade que, com a instituição dos parlamentos e salas de julgamento, após as revoluções liberais, o público sempre pode ter acesso e acompanhar os debates no plenário. Mas os espaços são pequenos. Mais recentemente alguns órgãos, como parlamentos e plenários da justiça, ganharam tevês exclusivas e todos os trabalhos passaram a ser transmitidos, ao vivo, pelos veículos de comunicação da casa. As sessões ganharam amplitude nacional, uma vez que eram transmitidas na forma de tevês abertas e compartilhadas nos satélites. Assim, qualquer pessoa, em qualquer ponto do pais, com uma antena parabólica barata comprada a prestações, poderia ver o que acontecia em locais onde nunca sonhou estar, uma vez que a distância e outras barreiras impediam. Mas agora era diferente. O público passou a poder acompanhar diretamente, sem intermediários e formar sua própria opinião sobre os debates em parlamentos e tribunais.

O sinal das tevês estatais passou a ser reproduzido com mais capilaridade na medida que a tecnologia digital substituiu a analógica. A imagem e o som melhoraram e as parabólicas encolheram no tamanho e no preço. Nas periferias das grandes cidades, nos pontos mais distantes do centro de emissão da transmissão, é possível ver as mini parabólicas. Elas deixaram os telhados das casas e passaram a ser fixadas nas parede. À disposição de todos, mais de 30 canais abertos, entre eles a TV Senado, TV Câmara e a TV Justiça. Esta foi uma conquista maior, uma vez que toda sessão do Supremo Tribunal Federal poderia ser acompanhada por todos, ainda que o palavreado usado pelos protagonistas nem sempre é inteligível aos simples mortais.

Aos poucos aquelas figuras desconhecidas do grande público começaram a ficar familiares. E os assuntos também. Decisões polêmicas, como células tronco, aborto de crianças sem cérebro, casamento de pessoas do mesmo sexo puderam ser acompanhadas pela população. Isto ajudou a formação de opinião, não só sobre os temas tratados, mas também do perfil de cada um ou uma dos onze membros do Supremo.

A atenção se dividia sobre os temas e o ritual das sessões, com ministros e ministras entrando de forma solene no plenário, envergando capas pretas que o povo aprendeu a chamar de togas, um funcionário com uma capinha só para puxar as poltronas dos juízes, o servidor do cafezinho, o pequeno público na galeria, os montes de processos empilhados atrás de alguns dos ministros e a presença de um ou outro advogado, bem atrás do púlpito usado para a defesa. Um senhor papagaio de pirata.

À direita da presidente, as pessoas começaram a identificar o ou a Procuradora Geral da República. Mas se ela não é ministra, o que faz ela lá?, especulavam. Aos poucos se entendeu o seu papel nas sessões do tribunal e, vez por outra, faz uso da palavra defendendo a posição da instituição que representa. Daí para o Portal da Transparência foi um pulinho. O público identificou quantos funcionários lá trabalham, quantos garçons, motoristas, copeiros, secretárias, jornalistas... Os números lá mostrados falam por si só.

No outro canto da polêmica está se as sessões devem ou não ser transmitidas ao vivo, sem cortes, sem intermediários. Há os que são contra esse escancaramento de uma sessão que, antes da tevê, era reservada para poucos. Muito poucos. Os protagonistas no plenário rapidamente entenderam que o sinal aberto pode ser transmitidos por outras emissoras. Com a chegada das plataformas digitais é só ter um tema polêmico e todas reproduzem o sinal da tevê da justiça. A imagem anexou ao televisor, o celular, o tablet, o computador e até a tela pendurada no interior dos elevadores. É um Big Brother às avessas.

O público passou a monitorar e não ser monitorado. A visibilidade da corte mexeu com o ego de alguns. Afinal, todos são humanos, mas uns têm o ego mais açulado do que outros. Os votos passaram a ser longos, chatos, repetitivos, cheios de palavras difíceis, mas que garantiam ao votante seus momentos de glória. Muito mais do que 15 minutos. Há votos que levam duas horas ou mais. Os leigos olham para o placar no pé da tela e continuam seus afazeres.

Os conflitos saíram da divergência de opinião e desceram ladeira abaixo, com ataques pessoais entre ministros. Isso até deu mais audiência à transmissão. A baixaria ganhou reprodução e memes nas mídias sociais. Torcidas se formaram a favor deste ou daquele. O público já se arrisca a antecipar o voto do próximo a votar. Nos botecos, começou a rolar um bolão regado a cerveja ou chopp.

Aos poucos foi possível entender que aquele grupo está conflagrado e que o que se decide no conjunto é aceito por uns e ignorado por outros. O extremo é ver que cada um decide por si e ignora o que se decidiu em plenário. É o monocrático se sobrepondo ao coletivo. Disso só pode advir a instabilidade jurídica pois, como diz a novela, em cada cabeça uma sentença. O motor de tudo isso é o excesso de exposição pública? É próprio da democracia? É a arrogância descontrolada? Ou a culpa é da transmissão que deve, imediatamente, perder o foro privilegiado e ser mandada para o xilindró, mesmo não sendo condenada em segunda instância?

Heródoto Barbeiro é editor-chefe e âncora do Jornal da Record News em múltipla plataforma.

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