Camisola e a vida alheia | Gazeta Digital

Quarta, 17 de maio de 2017, 00h00

Editorial

Camisola e a vida alheia

Da Editoria


De repente, um fato paralelo ganha repercussão e faz com que, ao menos temporariamente, o foco desvie para outro tema. Em Mato Grosso, só se fala da suposta rede de interceptações telefônicas clandestinas mostrada nacionalmente e que pôs a pulga atrás da orelha em muita gente. Uma das "vítimas" dos grampos, apontadas na denúncia, a deputada estadual Janaina Riva (PMDB), indignou-se com comentários de um secretário de Estado feito após a veiculação da reportagem pelo programa Fantástico, da Rede Globo. Ele questionava o zelo da parlamentar com a privacidade, uma vez que uma foto dela vestindo camisola estava circulando por grupos de conversa em smartphones da cidade toda, do Estado, ou sabe-se lá de onde mais. Percebe-se que o debate mudou. O comentário infeliz escancarou a dificuldade masculina em lidar com "adversárias" do gênero oposto. Parece, para os homens, existir uma tentação imensa em levar a discussão para o campo físico e sexual quando o embate endurece. Neste instante, as armas e estratégias usadas até então saem de cena, dentro do assunto em questão. É mais eficaz colocar em xeque o decoro pessoal, o comportamento da "dama" na sociedade e o que ela faz entre 4 paredes do que insistir em derrotá-la sem apelar para a baixeza. Isso ocorre historicamente na política, no esporte, no mercado de trabalho, em qualquer área.

A reação de deputada, de registrar boletim de ocorrências e "fazer barulho" nas redes sociais e no âmbito da Assembleia Legislativa, poderia ser classificada como ato político de uma opositora à atual gestão, mas precisa ser olhada de uma forma mais abrangente. Se toda mulher souber reagir à altura quando se vê vítima de opressão, injustiça ou discriminação por conta do seu gênero, um grande passo será dado para reduzir essas desigualdades.

A luta é diária e muitas vezes individual, mas sempre no sentido de cobrar respeito ao ser humano, independentemente de sua formação biológica ou orientação sexual. Não se vê, com frequência, no meio político brasileiro, algum detentor de cargo eletivo ou administrativo passar saias justas em razão do que faz fora de seus gabinetes em momentos de lazer (para o alívio de muitos). Não cabe a ninguém patrulhar a vida íntima alheia, a não ser que o alvo esteja cometendo algum crime. Fora isso, é bisbilhotagem pura, simples e inócua.

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