Vida partilhada | Gazeta Digital

Terça, 16 de maio de 2017, 00h00

Renato de Paiva Pereira

Vida partilhada

Renato de Paiva Pereira


A torneira da pia do apartamento começou a pingar. Dizem que um pequeno vazamento desses pode desperdiçar até 10 litros de água por dia, ou, 300 litros por mês.

Quinze dias depois o gotejamento já se transformou num filetezinho d"água suficiente para jogar fora 2.000 litros em 30 dias. Ainda assim não me preocupo.

Meu condomínio tem mais de 40 moradores e no rateio dos gastos serei responsabilizado pelo pagamento de somente 50 litros, os outros 1950 serão pagos pelos demais moradores. Essa pequena conta não me move a trocar ou reparar torneira, que custa coisa aí de 100 a 200 reais.

O diabo é que não sou o único perdulário do condomínio, outros têm problemas parecidos e atitudes semelhantes. Uns desperdiçam gás, outros energia de uso comum, alguns ainda danificam as instalações coletivas. Há também os que não se preocupam com a quantidade de água quente usada no banho, aquecida com derivados do petróleo.

O custo mensal do condomínio aumenta porque cada um crê que está repassando aos outros a maior parte das despesas do seu esbanjamento.

Como a vida compartilhada é muito difícil, criamos regras, normas e leis para tentar disciplinar o relacionamento social e inibir a velha mania de levar vantagem.

Mas a dificuldade persiste a despeito das leis e normas, porque nos apoderamos delas para continuarmos a obter vantagens individuais. Muitas vezes processamos pessoas e instituições por qualquer ninharia, acreditando por conveniência que justiça é gratuita. Malandramente preiteamos indenizações por danos que não sofremos.

Nos Estados Unidos o abuso na busca de indenizações ou compensações financeiras por supostos danos é quase um absurdo. Uns responsabilizam os fabricantes de sanduíches pela obesidade da população, outros querem achar uma relação de causa e efeito entre um filme violento e algum crime. Muitos buscam reparos na justiça por supostos erros médicos, nem sempre reais ou comprovados.

A busca de indenização por danos sofridos é justa e relevante, entretanto o abuso em querer a todo custo achar um culpado para todos os males do mundo, traz mais prejuízos que benefícios à sociedade.

A contrapartida é inevitável. Diante da possibilidade de ser obrigado a pagar indenizações volumosas os empresários se cercam de advogados com alto custo e se previnem aumentando os preços dos produtos, criando assim uma reserva para alguma eventualidade futura.

Os médicos são obrigados a fazer caros seguros, cujos custos certamente serão repassados ao preço das consultas e procedimentos. Também pedirão muito mais exames laboratoriais e de imagem que o necessário para se precaverem de alguma ação judicial.

Os valores dos exames excedentes serão pagos pelos pacientes ou influirão com certeza no aumento da mensalidade dos planos de saúde. Este ( o plano de saúde ) é outro sério problema, pois seu uso abusivo ( consultas desnecessárias) e a cada vez mais comum judicialização das demandas o torna cada vez mais caro

A justiça, irresponsavelmente acionada precisa de mais juizes, mais promotores, mais servidores, consumindo uma fatia maior dos impostos que todos pagamos.

A vida social é complicada mesmo: eu deixo a torneira pingando, tentando economizar o dinheiro do conserto, achando que vou dividir o prejuízo com os demais; também uso as prerrogativas da lei para exigir do condomínio alguma reparação que julgo merecer, esquecendo que o tiro com um mão terei da devolver com outra. Ainda processo o médico por que ficou uma pequena cicatriz no meu dedo, pagando, no preço das consultas futuras e nas mensalidades do plano de saúde, o resultado da minha ação e da dos outros pacientes intolerantes.

Não creio na melhora dos relacionamentos sociais diante do crescimento da intransigência nos modernos meios urbanos. Os pequenos problemas particulares parecem-nos infinitas vezes mais importantes que os da coletividade. Qualquer ganho imediato, ainda que pequeno, justifica um possível ou distante prejuízo futuro.

Além disso, somos maus juízes em causa própria, achando sempre que estamos com a razão. A justiça, os Procons e os advogados serão cada vez mais acionados para nos defender uns dos outros, nessa crescente epidemia de intransigência.

Renato de Paiva Pereira é empresário e escritor.

E-mail: renato@hotelgranodara.com.br



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