Viva a França! | Gazeta Digital

Segunda, 15 de maio de 2017, 00h00

Daniel Almeida de Macedo

Viva a França!

Daniel Almeida de Macedo


A França é um "país-sol"para muitas nações mundiais. Ícone da forma republicana de governo, desde a Revolução jacobina de 1789 a França influencia fortemente a ideologia política, as artes e a cultura. O modelo francês de educação influenciou de forma decisiva o desenvolvimento do ensino superior no Brasil. A primeira universidade a ser efetivamente institucionalizada no Brasil foi a Universidade de São Paulo, fundada em 25 de janeiro de 1934 com a criação da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, que até hoje permanece sendo o principal centro de estudos em Humanidades do país, e responsável pela formação de sucessivas gerações de pensadores nacionais.

Não obstante esse glorioso passado, a França vem perdendo real importância no quadro internacional. O idioma francês já foi o primeiro idioma estrangeiro, bem à frente do inglês. A literatura também era dominada por autores franceses ou então traduzida para a língua francesa. Alguns consideram que mesmo Paris já não tem a alma de cidade da luz, ponto culminante do iluminismo. A França segue sendo uma nação muito importante no cenário global, mas a incrível proeminência que identificava o país no passado já não é perceptível na atualidade.

Encontrar uma maneira de revigorar a atuação desse formidável país no cenário internacional, tornar mais dinâmica a economia francesa e cooperar com a Alemanha para liderar a modernização da União Europeia são os desafios do social liberal Emmanuel Macron, eleito o novo presidente da França com 66,06% dos votos (20,7 milhões). O eleitorado francês rejeitou a candidata presidencial de extrema-direita Marine Le Pen, da Frente Nacional, e escolheu o centrista Macron para o mais alto cargo político do país, trazendo alívio para setores moderados da França. A vitória contra a extrema-direita foi simbólica para demonstrar que a onda populista que parece se alastrar rapidamente no mundo pode ser contida, mas a partir de agora, um fracasso no governo de Macron poderia levar a uma nova ascensão dos extremos políticos.

Não há como ignorar que há uma profunda insatisfação da população francesa em relação ao baixo crescimento econômico e desemprego elevado, especialmente entre os jovens. Uma espécie de descontentamento bastante semelhante com aquele que os norte-americanos demonstravam antes da eleição de Donald Trump, nos Estado Unidos. Para reverter essa insatisfação e colocar suas ideias em prática, Macron precisará conquistar uma base de poder na Assembleia Nacional nas eleições que ocorrerão em meados de junho. Sem uma maioria parlamentar ou algo que se aproxime disso, o novel presidente francês terá poucas chances de transformar efetivamente o país.

Há, certamente, grandes dificuldades no horizonte que surge para o governo recém-eleito. Logo após reconhecer a vitória do adversário, Le Pen anunciou que seu partido será "a principal força de oposição" ao governo de Macron. A seu favor, no entanto, o presidente francês que tomou posse ontem, dia 14 de maio, tem o apoio de líderes da União Europeia e de diferentes países, como o Brasil. O projeto de política externa do presidente francês Emmanuel Macron promete favorecer o multilateralismo, que está em sintonia com a tradição da diplomacia brasileira. Da mesma forma, o perfil liberal do novo líder também pode favorecer a conclusão do importante e esperado acordo entre o Mercosul e a União Europeia. Assim, a vitória de Macron representa uma boa notícia para o Brasil pois ele significa a garantia da permanência da França na União Europeia, que hoje é considerada em sua totalidade um dos principais parceiros comerciais do Brasil. Viva a França!

Daniel Almeida de Macedo é doutor em História Social pela USP.



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