Tensão internacional | Gazeta Digital

Sexta, 21 de abril de 2017, 00h00

Tensão internacional

Pio Penna Filho


Estamos vivendo um cenário internacional de tensões elevadas. Existem dois países e duas regiões que se destacam: a Síria e o Oriente Médio; a Coreia do Norte e parte expressiva da Ásia. Não se trata de uma tensão qualquer, usual e corriqueira nas relações internacionais, mas de uma situação diferente e muito delicada.

O conflito na Síria colocou em lados opostos duas superpotências militares: Estados Unidos e Rússia. Como se sabe, é um conflito complexo, com múltiplos atores atuando simultaneamente e nem sempre coordenados. Essa guerra não está restrita apenas ao território sírio. Ela acontece simultaneamente em outros países da região e mesmo em áreas mais distantes.

É difícil isolar o conflito na Síria da guerra no Iraque e da tensão na região do Oriente Médio. Além dos Estados Unidos e da Rússia, dois importantes países da região se envolveram na guerra: Arábia Saudita e Irã. Isso sem contar o envolvimento mais recente da Turquia. E vale lembrar que Israel está ali, bem ao lado da Síria. A guerra por lá, portanto, envolve interesses de vários países.

Além dos Estados propriamente ditos, é importante levar em consideração que os diversos grupos insurgentes presentes na guerra da Síria não são exclusivamente nacionais. O corte se dá não pela fidelidade a esse ou aquele Estado, mas sim a uma determinada perspectiva religiosa.

O perigo maior do conflito na Síria numa perspectiva mais ampla não é tanto no plano regional, mas sim a possibilidade, mesmo que remota, de uma confrontação entre Estados Unidos e Rússia naquele cenário de guerra. Isso poderia levar o conflito a outra dimensão, com grande possibilidade de extrapolar as fronteiras do país e da própria região.

A outra área de tensão internacional é ainda mais perigosa. Trata-se da península coreana e da reação norte-americana ao regime totalitário da Coreia do Norte. A novidade é que, pelo menos no plano do discurso, o governo Trump elevou o tom e está fazendo ameaças abertas de guerra. Anunciou o envio de uma força aeronaval e diz estar pronto para entrar em ação. Até onde se trata de uma bravata, não sabemos, mas essa atitude só faz elevar a tensão na região.

O regime da Coreia do Norte é mais perigoso que o da Síria. A Coreia do Norte é um país armado até os dentes e dominado por um regime tipicamente totalitário. Isso é muito mais que uma ditadura. A imprevisibilidade é grande porque o regime só se sustenta pela força e por demonstrações de força e, nesse caso em particular, coloca um desafio maior motivado pela questão nuclear.

É razoável pensar que se os americanos resolverem pagar para ver, ou seja, se efetuarem qualquer ataque militar à Coreia do Norte, virá uma resposta também militar que demandará outras respostas igualmente agressivas. Isso quer dizer guerra.

É claro que a Coreia do Norte não tem a mínima possibilidade de vencer uma guerra com os Estados Unidos e nem mesmo de provocar qualquer ataque expressivo ao território norte-americano. Entretanto, ela pode atacar brutalmente a Coreia do Sul e possivelmente o Japão, aliados dos Estados Unidos.

Em resumo, há tensões demais no cenário internacional atual e os tambores da guerra estão sendo tocados. É preciso acompanhar com atenção esse cenário complexo e até certo ponto imprevisível

Pio Penna Filho é professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB) e pesquisador do CNPq E-mail: piopenna@gmail.com

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