Pequena Grande Vida | Gazeta Digital

Quarta, 07 de março de 2018, 11h28

cinema

Pequena Grande Vida

Observatório do Cinema


Pequena Grande Vida é um daqueles filmes que faz questão de evidenciar seu ponto de partida, uma premissa que daria vida a toda ficção, que movesse realmente a narrativa, a direção e tudo o que a obra deseja transmitir. Em Pequena Grande Vida essa ideia é um mundo reduzido, que homens em busca de uma melhor vida aceitariam se reduzir a doze centímetros para desfrutar de uma sociedade pretensamente melhor.

Pequena Grande Vida vive dessa sua ideia que ao primeiro momento, pelo menos aos olhos de seus realizadores, parecia um tanto quanto interessante, algo que tenta repensar o mundo, construindo uma alternativa de futuro e trazendo uma relação entre utopia e distopia, algo que se apresenta como bom, que nutre esperança, mas também pode apresentar um forte sintoma de um futuro que ressalte apenas as deficiências humanas. Não é por acaso que o longa utilize longos minutos para explicar seu mundo, mostrar como ele foi criado, como se desenvolveu e até mesmo como chegou a todos, mostrando nessa introdução os prós e contra daquela nova solução.

De fato, essa ideia é o que mais interessa no filme, e talvez aquilo que seu realizador Alexander Payne (do ótimo Nebraska) mais se apaixona em seu próprio trabalho. É ela que coloca alguma importância em Pequena Grande Vida, justamente por ir contestando aos poucos essa substituição por uma vida em miniatura enquanto os problemas sociais e ambientais seguem os mesmo. A questão é jogar com essa realidade que parece apenas ser replicada numa caixa de sapato, apenas reproduzindo o que se vê numa escala menor.

O grande problema é que no meio dessa história, desse discurso já pré-organizado deve haver uma narrativa, um personagem, alguém que age para que todos esses temas e pontos surjam dentro de um discurso de imagens. É apenas com esse mundo já bem explanado, que o espectador conhece o protagonista dessa trajetória, o americano comum Paul Safranek, que trabalha na sua terapia ocupacional, batalha para junto com sua esposa ter uma condição financeira melhor e até cuida de sua mãe doente. Uma insatisfação com aquilo que o cerca faz com que ele pense em ir para a cidade em miniatura, onde suas economias valeriam fortunas.

Nesse primeiro ponto, se vê um acúmulo de clichês para que esse homem chegue ao outro mundo. Como se fosse uma mera burocracia, Alexander Payne conduz com artificialidade e sem naturalidade seu protagonista até o destino desejado. A insatisfação final vem através de um reencontro de sua antiga turma de estudos, local onde ele pode sentir que sua vida não valeu tanto a pena quanto a dos outros, artifício fácil para essa indignação por completa. A solução vem ali mesmo, e um amigo está em miniatura e diz como tudo aquilo pode ser bom, um novo sonho americano.

Como até mesmo o trailer antevê, Pequena Grande Vida parece fazer dessa transição seu mote principal, como se acostumar naquela realidade miniaturalizado. Principalmente quando seu laço mais forte se vai, abandonando-o nessa realidade paralela. Um ponto dramático forte que até se espanta estar em todos os materiais de divulgação do filme. Abandonado o protagonista se vê mais uma vez frustrado com suas próprias escolhas, algo que poderia ser impactante naquela ficção, revelando a falência daquela sociedade, mostrando até mesmo que aquele sentimento independe do lugar em que se vive. Mas tudo isso aconteceria se isso ocorresse relativamente próximo ao clímax. Em Pequena Grande Vida isso marca apenas o fim de seu extenso primeiro ato.

É como se no primeiro terço, Payne propusesse dois artifícios de roteiro que enganem seu público acerca do que é o filme, fazendo com que ele entrasse ainda mais naquela trama. Esse McGuffin duplo tem efeito oposto e apenas afasta seu espectador, como se dentro daquele universo tão bem construído nada realmente faz com que o público olhe para ali. Muito disso se deve a essa paixão por aquela hipótese futurista, atribuir apenas aquele drama de compreensão de uma hipocrisia social e conformismo seria muito pouco, nesse mundo onde o criador acredita ter uma série de nuances. A segunda e terceira parte são marcadas por voltas e voltas narrativas, o protagonista percebendo que aquele mundo não é tão bom, vendo comunidades carentes de pequeninos às margens das grandes pequenas cidades, ou pessoas mandadas para lá a força, como uma Vietnamita ativista importante na trama.

E a resposta para toda desilusão também está numa descoberta banal, que lá também existe contraventores e pessoas que acreditam na possibilidade de uma droga ingerida, ou uma venda ilegal seja mais uma aventura da vida, algo que pode proporcionar outras experiências. A sensação que fica é que na verdade nada naquele mundo é tão diferente, algo que surge menos como uma crítica do gênero “o mundo será sempre o mesmo”, mas muito mais como uma incapacidade de criar sutilezas e particularidades dentro de um futuro. Pequena Grande Vida parece tão banal quanto tudo o que já se vê na vida normal. Algo defeituoso numa obra que deseja chamar tanta atenção para sua ideia tão diferente.

Assim, a direção de Alexander Payne acaba apenas sendo um recurso que tenta mostrar a diferença dos mundos, sempre enquadrando um mundo gigante próximo a um mundo pequeno. Ou como seria visualmente interessante ver garrafas de vodka gigantes sendo levadas por nanobarcos. Payne parece deliciar-se com essas imagens, como se brincasse com seus bonecos de ação e só ele entendesse o quão interessante é o mundo que ele está vendo. Enquanto os que assistem aquela brincadeira de fora apenas não vêm o que aquela brincadeira tem de tão divertida.

Nessa crença absoluta na ideia de Pequena Grande Vida, o filme mostra-se falho ao fazer desse entorno algo mais importante do que qualquer outra coisa, evitando dar a suas figuras humanas uma importância tão grande, quanto aquela premissa, e sem essa caraterística um filme como esse é incapaz de andar.

No final das contas percebe-se que nem a ideia é tão inovadora, muito menos a construção em torno dela, e toda aquela pretensão de comentar uma possibilidade de futura é apagada, tornando-se apenas um discurso demagógico que surge sem nenhum despojamento, verbalizado e amassado na cabeça de seu público. Ainda sobra tempo para o longa repetir as mesmas piadas, como o sobrenome impronunciável do protagonista, e nem mesmo uma risada é capaz de tirar nessa falsa grande ideia que é Pequena Grande Vida. 

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