Três Anúncios para um Crime | Gazeta Digital

Quarta, 14 de fevereiro de 2018, 11h26

Crítica de cinema

Três Anúncios para um Crime

Observatório do Cinema


A conjuntura mundial caminha a passos largos para momentos de tensão e insegurança, ondas de extremismo e conservadorismo radical dão a tônica desse atual período. Isso, obviamente, não está associada apenas à medidas oficiais, dentro dos mais variados governos, mas sim no lado individual, onde ações extremas geram reações ainda mais incertas, gerando grande instabilidade. Três Anúncios para um Crime, favorito ao Oscar, traça um pequeno perfil da insegurança numa pequena cidade do Sul dos Estados Unidos, mais precisamente no estado do Missouri, numa cidade palco para os mais variados choques de idéias, num debate nada saudável.

Dirigido por Martin McDonagh, do surpreendente A Mira do Chefe (2008), o longa faz dessa região interiorana um microcosmo de sentimentos muito mais globais. O ponto de partida do filme se dá quando uma mulher compra três outdoors numa pequena estrada de acesso à Ebbing. Nos anúncios que batizam o filme, a protagonista cobra a polícia local pela não resolução de um crime brutal envolvendo sua filha. O evento quebra toda a falsa pacificidade existente na cidade, gerando um ponto de extremismo, colocando em choques seres que parecem não serem nem mais da mesma espécie.

Três Anúncios para um Crime poderia ser apenas um conto moral, com a empatia sendo sua grande e edificante mensagem. Todavia seu realizador é muito mais inteligente que isso, e talvez suas raízes no teatro faz com que McDonagh realize uma espécie de farsa sobre os ocorridos naquela cidade. Local que parece ser um coquetel molotov prestes a explodir, mas enquanto esse processo ocorre o único que se pode fazer é gargalhar daquilo tudo. Um filme que traduz um estado neurótico das coisas que gera, sobretudo, um riso descontrolado.

O longa é dono de um humor ácido, radical, sem medo de tocar nas mais expostas cicatrizes de um ainda fresco e pungente cenário sócio-político americano, sem fazer menções explícitas sobre ele. O diretor entra num seleto grupo de cineastas europeus (no caso, ele inglês) que conseguiram pensar com perfeição as complexas conexões sociais dos EUA, como Milos Forman (Procura Insaciável; Um Estranho no Ninho), Wim Wenders (Paris, Texas; O Amigo Americano) e Werner Herzog (Stroszek), entre alguns outros. A grande competência de Três Anúncios para um Crime é colocar os dois lados de uma mesma moeda em constante crítica, os dois extremos não dialogáveis em crise com seu próprio pensamento.

Ou seja, o longa faz uma análise bruta desse processo, de um conservadorismo cego que não percebe que apenas reproduz um discurso de ódio, pautado apenas numa violência desmedida, sem perceber que não coloca nenhuma proposição para melhorias sociais. Assim como um pensamento progressista incapaz de apresentar suas ideias a partir do diálogo, tomando as mesmas estratégias do grupo rival. O filme apresenta o quão grave são as consequências desse embate de forças e mostra como pode ser trágico esse processo. Muitas vezes Três Anúncios para um Crime é um longa forte que mexe com os sentimentos do público, isso ocorre porque seu realizador consegue transitar entre o cômico e o dramático sem soar exagerado ou forçado.

E, de fato, a solução colocada na obra é a empatia, mas isso não soa piegas ou cafona, justamente porque a obra entende perfeitamente o significado dessa palavra. Três Anúncios para um Crime é um longa extremamente humano, que faz questão de analisar a fundo cada personagem principal, investigando o cerne daquelas figuras e suas respectivas ações. Evidente que no mundo caótico e satírico de Ebbing cada um parece mais exótico que o outro, gerando uma curiosidade por parte do espectador. O grande êxito do filme é fazer com que o curioso torne-se material para a compreensão do outro, daquele que é diferente.

Nesse rico material humano, quem se sobressai é o elenco do filme. Woody Harrelson ercanando um policial imerso num pensamento corrompido, que apenas consegue rir de si mesmo, a medida que não encontra soluções para os problemas de sua cidade. Frances McDormand uma gelada e amargurada mãe que leva todos seus pensamento ao paroxismo. E um Sam Rockwell que é a tradução perfeita de uma criança portando arma de fogo, sendo um policial sem nenhuma consequência de seus atos. O mais interessante é que todos eles acreditam plenamente em suas ações, por mais bizarras que sejam, gerando a medida certa entre drama e ironia.

Três Anúncios para um Crime é uma obra que lembra muito uma tradição dramatúrgica, na sua potência textual e na força da atuação. Se pode haver alguma reclamação em relação à invisibilidade de um estilo cinematográfico, deve também saber o quão é importante fazer um trabalho que não deseja chamar atenção para si mesmo, sabendo colocar bem suas ideias. E no momento saber expor ideias é algo imprescindível. Três Anúncios para um Crime faz perfeitamente isso, sabendo criar um cenário de neurose coletiva que se instala em Missouri, mas poderia ser na América, ou no mundo como um todo. Três Anúncios para um Crime é um filme que compreende seu próprio tempo.

 

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