Cuiabá, Terça-feira 23/10/2018

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10.01.2018 | 00h00

A voz de veludo

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Este ano não foi fácil. A imagem que me ocorre é a de um personagem do romancista alemão J. M. Simmel. Num acidente de automóvel um seu personagem ficou pendurado numa ponta de uma ponte que balança no abismo e ele não sabe o que fazer para sair da armadilha que o infausto acidente o meteu. Se não ficar imóvel o pêndulo onde está se precipitará no abismo. O tempo passa e está ficando impossível continuar imóvel. O que fazer ou não fazer? Alguns e nem todos contam com a sorte! E, naquele momento, o imponderável fez das suas e o salvou.

No País do futebol, onde o Criador teria nascido, já usamos e abusamos da sorte. O imponderável está cansado de nós. Ele já fez muitas vezes o que era preciso, mas nós não fizermos o dever de casa e continuamos neste pêndulo que balança, mas não cai.

A inércia, entretanto, não é lugar para ficar. Ou continuamos a afundar ou emergimos. A incerteza reinou soberana no ano passado. No seu final havia indicadores de que paramos de cair.

O certo é que morando aqui ninguém está seguro. E a insegurança é um veneno para os nervos. As próximas eleições neste final de ano são uma incógnita. E até lá haja remédio para dor de cabeça, dor de barriga, coração e pressão incontrolável.

E eu e muito de nós - que estamos no outono da vida - queríamos paz de criança dormindo e abandono de flores se abrindo - estamos à beira de um ataque de nervos. O salário que não existe e quando existe míngua a olhos vistos. Até o salário mínimo diminuiu. E uma pretensa reforma da previdência social que mal explicada agrava as nossas parcas esperanças de uma aposentadoria digna. E os pequeno e médio empresários que viraram equilibristas, pois se fechar o seu negócio que vai mal das pernas não saberá o que fazer. E as inúmeras empresas fechadas e que estão por fechar. E até no privilegiado porto seguro do serviço público começou a entrar água. O governo se equilibra num fio de navalha e vê indícios de recuperação que queremos acreditar que sejam reais.

Enfim como será o inferno? Se não é este é coisa parecida! Está difícil encontrar alegria neste samba! O que resta a nós outros otimistas? Tocar um tango argentino e esperar que alguma pitonisa nos preveja um futuro colorido!

O que fazer? Eu não sei, meu caro leitor! Já ouvi um samba e toquei um tango. Vou perguntar para o Drummond! - E agora, José! Com a chave na mão quer abrir a porta, não existe porta; quer morrer no mar, mas o mar secou; quer ir para Minas, Minas não há mais. Se você gritasse/ Se você gemesse/ Se você tocasse a valsa vienense/ Se você dormisse/ Se cansasse/ Se você morresse... mas você não morre... Você é duro, José!...Sem cavalo preto que fuja a galope, você marcha, José! José, para onde? -

Enfim, cansado de tantas incertezas, de prisões, massacres, ladrões, roubos, corruptos e de quantas outras misérias humanas... Vou ligar o meu velho e companheiro rádio, e me dar o privilégio de ouvir os suaves acordes das cores de arco-íris da delicada voz de veludo de Mariangela Prado!

Renato Gomes Nery é advogado em Cuiabá. E-mail -rgnery@terra.com.br

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